Sábado, Dezembro 16, 2006

Perdão a todos, de fato, ainda não havia postado o "Culpa..." aqui no blog. Aí vai o conto que foi publicado na antologia do Peter Rohl:
Culpa, Culpa, Culpa...


O inverno chegava como saia, passava mesmo despercebido. Normal já. Ninguém o esperava com muita expectativa naqueles descampados-de-meu-Deus. Era sempre seca, sempre sol ardendo na carapinha dos pobres; aridez consolada, quando em vez, pelos pingos d’água recém raspados do poço esturricado, que se dispersavam pelos buracos da lata velha levada na cabeça. A única água certa era a do choro das crianças, cara de fome, boca de fome, olho de fome.
Esperar, esperavam. Querer até queriam. Por isso a reza, o choro, o terço corrido entre os dedos rotos de barro, a ida ao poço (mesmo que de lá já não se tirasse nada). Fé tinham a granel.
E quando São José permitia – louvado fosse – que, no céu, riscassem carregadas brumas, voltavam-se todos os retirantes, filhos que eram daquelas terras, atrelados que estavam, de umbigo enterrado à soleira da casa-mãe. E os que ali ficaram durante os maus bocados, punham-se a remendar latas e tambores, na sina de reter o pouco que lhes viesse.
Foi pelas secas de 45 que Valdevina Abreu arribou com os retirantes, a tentar a vida na capital. A viagem era vontade que tinha desde muito dantes, desde que o marido partira na mesma sina. O homem partiu-se e sumiu-se.
De mala nas mãos, quis Valdevina dos filhos um derradeiro abraço e, da mãe, a benção.
- Deus lhe acompanhe. – saiu da boca materna como um grunhido gutural,
daqueles que se deixa escapar sem se sentir. Maquinal.
Revestida de um orgulho épico, bateu no peito retirante prometendo assentar-se logo, mandaria buscá-los assim que pudesse. Compartilharia com eles a nova terra, nova vida, longe daqueles fundões. Houve silêncio. Aos filhos e à mãe, aquelas promessas vieram como eco, resgatando o que, pela boca de outro, já lhes soara. Não criam mais. Calados a viram cerrar a porta e ouviram aproximar-se a procissão em êxodo.

De trouxas nas mãos, a moça meteu-se no meio das gentes e não olhou o casebre
de taipa mais uma vez.
Carcomia-lhe o peito a certeza de que ninguém lhe assistia à partida e a covardia de admitir que ia por fuga. Dos sertões, da casa, dos filhos, da mãe, de si. Fuga. Motivo de quem parte, revolta de quem fica. Mal sabia ela que quem por fuga parte, marcado fica. E, por sina, fugirá sempre.
Foram léguas de caminhada tangidas por cânticos e preces; dias e dias contados nos nós das cordas que lhes atavam calças e saias. A caatinga apresentava-se arredia, indomável; os ventos quentes rompiam morros, arribando a poeira, queimando as ventas dos meninos pequenos e matando de sede as goelas setuagenárias.
Os rogai-por-nós, ê-bois e ave-marias viajavam com o vento enquanto o olho retirante perdia-se nos arredores: eram serras amarelas, de relva em fogo, qual juba de leão. A despontar pelo caminho, cumes diversos, altos e baixos que as estradas encarnadas rompiam desmedido.
E Valdevina lutava para distrair-se com a paisagem, ou perder-se pela reza, mas via a mãe em cada rogo e os filhos nas crianças sujismundas agarradas às saias. Era a culpa queimando mais que o sol, pesando-lhe mais que a trouxa. Era a culpa, que lhe virava a cabeça, lhe rondava qual urubus à presa moribunda.
O vento frio anunciou o fim de mais uma tarde e o caule retorcido da sirigüelera foi abrigo àquela noite, em que os urubus de Valdevina circundaram, circundaram.
Levantou-se. Não pôde mais com tanta dor.
Largou-se a caminhar sozinha, mato a dentro. E haja ferir-se nos ramos secos sem se notar. Estava indiferente como um lazarento, que, dada a quantidade de dores, já não sabe atinar para qual lhe castiga mais. A lua alta, gorda e amarela lhe iluminava o caminho, e os urubus, urubus, urubus, sempre em volta. Apertou o passo; enveredou-se pelos ermos com avidez de negra fugida. Desnorteada, já não lhe importava a direção; tudo lhe vinha turvo, banhado em nuanças de amarelo e breu. Gordura da lua.
Pouco mais, viu-se a correr (...) e o corpo cansado, num assomo, foi ao chão. E, em prantos, odiosa que estava de si, resfolegava: “Ele pôde, e eu não pude. Ele pôde e eu não pude”, lembrando o marido. Sim, já atestara não poder mais com tamanho verme lhe comendo por dentro, sorvendo-lhe a vida, a começar das entranhas.
“Não pude”, lembrando o marido.
“Não pude”, lembrando os filhos.
“Não pude”, lembrando a mãe.
E, já morta de alma, deixou aos urubus, urubus, urubus o oficio de rasgar-lhe as peles, bicar-lhe os olhos, romper-lhe as vísceras.
A lua gorda deu lugar a um sol impiedoso e o vento frio da noite, a um abafado, que trouxe, de não muito longe, a notícia: e a morte inesperada de Valdevina confundiu as cabeças retirantes, mas não tanto quanto a estranha insistência dos urubus, urubus, urubus..., sempre em volta, a reivindicar o corpo.

Quinta-feira, Novembro 30, 2006

E o "Culpa, Culpa, Culpa...", conto regional publicado no primeiro Canhotos - zine coletivo - e que está postado aqui no blog, foi selecionado entre os quatros finalistas do concurso Peter Rohl de literatura, será que estu feliz????


Ah, mmmmmmmmmmmmmmmuito!

Obrigada a todos os que visitam o blog, felicitem-se comigo!

\\\\\o//////

Fique.

“Fique – disse-lhe – fique um tanto.”


E não teve mais o que dizer. Engasgou-se de todo. Num silêncio morno, imperou certo movimento leve de retenção, tal qual uma cadela, rabo entre as pernas, metendo-se pelos cantos da casa. Aguardou ensimesmada. Nos olhos – de escuras extremidades, entretanto, erguidos de relance, morava brilho de significância tão real quanto palavra, tagarelavam aquelas pupilas alagadas.

Arrastou os pés descalços – alvos, finos e novos - no tapete encarnado, procurando as alpargatas. Tocou com o mindinho o suor do White Horse e assustou-se da gelidez. Entreteve-a olhar o copo já cambaleante, um tanto duplicado e lento, em sua ótica ébria, escondeu-a por alguns segundos, poupou-a do transtorno dele, a repará-la do alto, sisudo, distante e áspero.

Notou, entretanto. Como não sentir sobre os ombros arqueados o jugo daquele olhar desdenhoso e crepitante? E, naquela postura, acachapada, prostrada - ainda que pela busca do calçado - tão alta, achou-se miúda; tão alva, suja; tão nova, velha; medíocre e insignificante diante daqueles mocassins 44, calça caqui, blazer e indiferença. E odiou o “Fique” cuspido. Maldita teimosia não o ter calado com White Horse.

Não se pôde saber quantas horas o havia esperado, hesitara em admitir ao espelho, à foto de casal. Copo à mão, revirava-se numa indiferença de vadia, que era mentira, mentira que o aguardava. Cantava alto Fagner, rebolava faceira a barra da saia e sentia-se assim madama novamente.

“Um dia vestido de saudade viva faz ressuscitar...”

O confidente era esguio, dourado e ornado. Esbelto, refletia-lhe o corpo todo. Cabia-lhe inteiro no espelho o corpo fino de moça branca e lânguida, qual gaúcha sem o ser. Outro gole, olhos neles. No espelho, na janela.

Do não muito alto do segundo andar, reparou o sedan a recostar-se macio. Foi pelas frestas da cortina de jérsei que reparou duas silhuetas a se tocarem vertiginosamente, a se possuírem, desvencilhando cintos, esquivando marchas e direção. Era ele. Ele e aquela.

Outro gole, outro gole. Não, que não podia terminar assim. Assistiu ao coito austera. Ambos gozaram rápido, como num susto-espasmo, curtido por alguns segundos – ele mãos enleadas nos cabelos daquela, esticado, nervoso. Aliviou-a um tanto e a enfezou em segundos: gozava rápido assim consigo? Demoravam mais até onde lembrava... E não seria essa a vantagem da vagabunda? Significaria mais prazer em menos tempo?

Fim de copo, mas não de gelo. Beberia só até aquelas pedras derreterem, que não as desperdiçaria. E sinalizou positivamente com a cabeça a si mesma, num elogio à sensatez.
Significaria mais prazer em menos tempo? Permeava-lhe a cabeça tal qual o fluido caramelo ao copo largo e suado. Conferiu novamente por entre as cortinas de jérsei: já haviam se refeito.


Ninguém mais ao veículo. Deveria estar subindo as escadas, excomungado... e ele nem pra leva-la (a moça) em casa, ou no ponto, se fosse meretriz... bem conhecia sua falta de cavalheirismo, sempre assim, sempre assim, desde a faculdade. Um bruto. Não fosse a safadeza instigante e a beleza inquestionável, jamais se teria permitido – jamais. A mãe insistira: bom rapaz, muito bom rapaz, dissera. Um bruto. Mal sabia ela. Ou sabia? Desconfiava que a mãe conhecia mais dele que ela mesma, que aquele irmão arranjado numa longa viagem tão repentina tinha uns olhos um tanto quanto familiares. Que se danassem os dois. Cantava o Fagner.

“ ...casas mal vividas / camas repartidas / vão se revelar...”

Tendo chegado ele, girado a maçaneta e entrado tão imponente, cínico e satisfeito, irritou-se ela de estar bêbada já. Queria vê-lo sóbria, dizer-lhe umas verdades sóbria(s), chutar-lhe fora.

“Saia.”

Isso mesmo o que ele disse, assim num susto.

“Como?”

“Saia. Vá daqui.”

Ela mesma o poria porta afora, se lhe pertencesse o lar; e sentiu ódio dele por tê-la roubado o pensamento, por tê-la forjado a atitude – importante era sabê-lo nem ser tão original assim.
E ficou abestalhada, qual barata tonta, a saracotear pelos cômodos, enquanto ele esperava-a de pé, na sala, segurando a porta entreaberta. Não se moveu. Assustou-a não ter ele retirado sequer o casaco - hábito religioso, cultivado bem no carpete da frente -, a gravata intacta cingindo-lhe a goela, nenhuma saliva engolida de insegurança: não é que o maldito estava mesmo decidido?

Esperou-a pacientemente compreender que deveria arrumar as malas, não fora sempre assim, entretanto. Antes enxugou brusco o suor que lhe empapava a face vermelha, o pingo pendente no canto das têmporas, e invadiu o quarto, puxando-a pelos cabelos. Torceu aqueles tufos alourados no punho firme e deu-lhe na cara alva, sangrou-lhe o rosto, arroxeou-lhe braços e pernas: murros e quinas de mesa, pernas da cama e o balcão do bar. Tê-la-ia possuído se já não estivesse farto - que volúpia e ódio têm decerto uma só gênese, são paridos mesmo no ventre da violência, gozam dela o vigor e a ânsia antes de se darem a gozar.

E o Fagner.

“Quando a gente tenta / de toda maneira / dele se guardar...”

E ele, um tanto depois, algodão à mão.

“Deixa ver esse nariz.”

Sentiu-se dolorida como de uma bofetada com aquelas diligências. Mas ele só podia estar bebido, para um disparate desses! Aproximou-se dela cauteloso, diminuíram-se as distancias no sofá de três lugares. Ela, a subir pelos braços da poltrona, quis lutar – exausta e temerosa condescendeu, no entanto.

“Não fiz por mal...” – todo pai – “... nada de mais.” – toda feito um cachorro.

Com o algodão embebido em álcool o dedo morno e dedicado lhe tocava. Dedo de homem. Mãos de homem. E achou-se segura, cuidada. Calmaria naqueles olhos apertados de doutor, sério, distinto.

“Saio eu esta noite. Vais tu amanhã cedo.”

O Fagner.

“...sentimento ilhado / morto e amordaçado / volta a incomodar.”

E ela.

“Fique – disse-lhe – fique um tanto.”

Sexta-feira, Outubro 27, 2006

Protesto

Meteu-se nuns desesperos – aliás, nunca tidos – de não poder mais sozinha, e aporrinhou-se do sol que lhe afogueava os dedos do pé. Pôs-lhes à sombra. Cantava amarga marchinha, bem aquela que o pai entoava à beira da rede sacudida: os espasmos da pequena – tamanhos os cansaços, que lhe saltavam os olhos, encarnavam as faces; a mão era espalmada, agarrando com os toquinhos de dedos – pálidos do aperto – os punhos da rede, escalava num desespero afônico e gutural: vento, vento, sopro.

E os pés sempre queimados de andar descalços. Reparava-os agora, eram quase toda sua paisagem. Pois não foi que se tornaram mesmo grandes, longos e abertos? Bem que ela disse. Pior que a asma, admitir a razão dela. Pior.

Ela, a bem quista, a princesinha; pior que a asma enxergá-la a esses modos. Quando as cunhãs bordadeiras de muito tempo elogiaram, certa vez, a peça dela, pipocou:

- Bordasse um mandacaru, ela. Dava mais certo. Aquela lá não dá nem sombra nem encosto. Mesmo que um mandacaru. Espinha. – pior que a asma enaltecê-la.

E quantas vezes o espinho da Mandacaru não lhe ferira. Quantas vezes, não o dedo, mas o coração.

Agora, padecendo daquele estado, tendo voltado os punhos pinotantes dos tempos de criança – guardada que estava a rede de sempre, justo para o mais que previsto retorno dos cansaços -, agora, quando os dedos iam engelhados na corda desbotada de alvejante à hora das crises, agora, em que era um bolo enrugado na alcova espremida e calorenta, lá se vinha a Mandacaru dar-lhe beberagens na boca, lambedores, e haja caldo, mastruz, gengibre e mande vê mesinha da cidade e isso e aquilo pr’a mode a asma se curar. A Asma se curar.

Mandacaru não dá sombra nem encosto – insistia a Asma lá por dentro. E enfezava-se daquelas caridades.

Encolheu os dedos. O diabo do sol ainda escorria pelos buracos da telha, pinicando de mil holofotes a alcova escura. Eram aqueles círculos que lhe afogueavam os pés gelados, quietos – estafados – agora, depois da crise. Chutou-se a não mais poder daquela vez. Fora aqueles mesmos círculos que, no debater-se ensandecido de há pouco, de esperança que lhe rasgasse os pulmões um filo de vento, vira a dançarem frenéticos diante de seus olhos pastosos: à procura dela, certamente. Escarneciam, podia jurar.

Assim, enquanto amaldiçoava buraco por buraco, pensou no quanto o sol insistia em se meter na vida dos outros; no quanto não se contentava em deixá-los quietos em seus cantos a morrer frios e pálidos, mas se alastrava frestas, caibros, rebocos e telhas numa ânsia imunda de clarear tudo. Lembrou-lhe Mandacaru. E teve asco.

A rede infante, certo dia, parou. E os punhos que suportaram Asma clamando sopro, ainda o fizeram tendo se dado seu último – assistiram-lhe, na verdade. O cortejo cedo chegou à casa, rezar a morta. Botou-se lágrimas e engoliu-se o consolo de nunca terem visto aquela mulher deitada tão tranqüila, sisuda ainda – no entanto. Sisuda, sempre. A moléstia pusera-lhe assim, diziam, maquiando os espinhos tão bem sabidos quanto a asma da coitada.

Pelo meio-dia, em preto, Mandacaru apareceu. De mãos dadas – de posse – do viúvo, entre longos soluços pediu que trouxessem a rede fora, seguissem procissão de uma vez. Não largava as mãos grossas do rapaz, comentavam.

Deslize no translado ou empenho último da falecida, tendo-se achegado a caçula, Mandacaru, ao caixão, sob o sol a pino da hora que parte o dia, Asma virou-se de bruços, contaram! E assim enterrou-se, disseram.

Não havia quem a arrumasse no caixão, podiam jurar.

Domingo, Outubro 08, 2006

Marolas

Talvez da Mama tenha herdado hábito de relacionar, à praia, descanso. Era fartar-se das costuras p’ra pedir o litoral feito criança, a pobre Mah. Ou isso ou casa de avó, de tio, de primo de sei-lá-que-grau: residências interioranas de vento, quintal, leite fresco, rede, alpendre, conversas ao pára-peito.

Caminho arrastando comigo areia morna, o céu é limpo esse domingo, não sombreia de brumas as águas verdes. E penso como minhas débeis pernas de outrora conseguiam manter-se firmes mar adentro. Venho à praia desde que por gente me entendo.

Rememoro sem dificuldade minhas varetinhas indo, sem medo, areia fina, areia ensopada, água rasa e, finalmente, vacilando paredões de espuma branca que se formavam e ruíam ante meus olhos infantes. Arrastam-me areia entre os dedos, ondas seguidas. Não é fácil adiantar-se agora. Quando menor, avançava mais. Punha-me cara a cara com os paredões, testemunhava-lhes austera o parto e a morte, parto e morte, e sentia-me pujante.

Quantas coisas mais não fiz melhor quando criança, a quantas mais não me adiantava? Crianças temem menos. Esquecia tudo tão logo o avistava – imenso – ao longe. Que eram das provas de aritmética, das solidões à hora do recreio, das companhias indesejáveis de fim de semana? Nada. Ficavam à margem.

É domingo, penso novamente, e o mar cata e devolve, não como nos dias da semana, mas sacramente idêntico aos domingos, por que ao primeiro dia dos sete infindáveis, ele cata e devolve diferente; mergulho e estatizo. Olhos fechados, deixo-o catar-me e devolver-me. Leva-me amnésia adentro e traz-me rotina afora. Mergulho: adentro e segunda, terça, quarta – retorno. Mergulho: adentro e nutricionista, texto, fichamento. Mergulho: esquecimento de amanhã e faculdade, projeto, pesquisa.

Crianças lembram menos. Ponho-me de pé. Mah chamou-me ao longe. Minha vida precisa de mim.