Perdão a todos, de fato, ainda não havia postado o "Culpa..." aqui no blog. Aí vai o conto que foi publicado na antologia do Peter Rohl:
Culpa, Culpa, Culpa...
O inverno chegava como saia, passava mesmo despercebido. Normal já. Ninguém o esperava com muita expectativa naqueles descampados-de-meu-Deus. Era sempre seca, sempre sol ardendo na carapinha dos pobres; aridez consolada, quando em vez, pelos pingos d’água recém raspados do poço esturricado, que se dispersavam pelos buracos da lata velha levada na cabeça. A única água certa era a do choro das crianças, cara de fome, boca de fome, olho de fome.
O inverno chegava como saia, passava mesmo despercebido. Normal já. Ninguém o esperava com muita expectativa naqueles descampados-de-meu-Deus. Era sempre seca, sempre sol ardendo na carapinha dos pobres; aridez consolada, quando em vez, pelos pingos d’água recém raspados do poço esturricado, que se dispersavam pelos buracos da lata velha levada na cabeça. A única água certa era a do choro das crianças, cara de fome, boca de fome, olho de fome.
Esperar, esperavam. Querer até queriam. Por isso a reza, o choro, o terço corrido entre os dedos rotos de barro, a ida ao poço (mesmo que de lá já não se tirasse nada). Fé tinham a granel.
E quando São José permitia – louvado fosse – que, no céu, riscassem carregadas brumas, voltavam-se todos os retirantes, filhos que eram daquelas terras, atrelados que estavam, de umbigo enterrado à soleira da casa-mãe. E os que ali ficaram durante os maus bocados, punham-se a remendar latas e tambores, na sina de reter o pouco que lhes viesse.
Foi pelas secas de 45 que Valdevina Abreu arribou com os retirantes, a tentar a vida na capital. A viagem era vontade que tinha desde muito dantes, desde que o marido partira na mesma sina. O homem partiu-se e sumiu-se.
De mala nas mãos, quis Valdevina dos filhos um derradeiro abraço e, da mãe, a benção.
- Deus lhe acompanhe. – saiu da boca materna como um grunhido gutural,
daqueles que se deixa escapar sem se sentir. Maquinal.
daqueles que se deixa escapar sem se sentir. Maquinal.
Revestida de um orgulho épico, bateu no peito retirante prometendo assentar-se logo, mandaria buscá-los assim que pudesse. Compartilharia com eles a nova terra, nova vida, longe daqueles fundões. Houve silêncio. Aos filhos e à mãe, aquelas promessas vieram como eco, resgatando o que, pela boca de outro, já lhes soara. Não criam mais. Calados a viram cerrar a porta e ouviram aproximar-se a procissão em êxodo.
De trouxas nas mãos, a moça meteu-se no meio das gentes e não olhou o casebre
de taipa mais uma vez.
Carcomia-lhe o peito a certeza de que ninguém lhe assistia à partida e a covardia de admitir que ia por fuga. Dos sertões, da casa, dos filhos, da mãe, de si. Fuga. Motivo de quem parte, revolta de quem fica. Mal sabia ela que quem por fuga parte, marcado fica. E, por sina, fugirá sempre.
Foram léguas de caminhada tangidas por cânticos e preces; dias e dias contados nos nós das cordas que lhes atavam calças e saias. A caatinga apresentava-se arredia, indomável; os ventos quentes rompiam morros, arribando a poeira, queimando as ventas dos meninos pequenos e matando de sede as goelas setuagenárias.
Os rogai-por-nós, ê-bois e ave-marias viajavam com o vento enquanto o olho retirante perdia-se nos arredores: eram serras amarelas, de relva em fogo, qual juba de leão. A despontar pelo caminho, cumes diversos, altos e baixos que as estradas encarnadas rompiam desmedido.
E Valdevina lutava para distrair-se com a paisagem, ou perder-se pela reza, mas via a mãe em cada rogo e os filhos nas crianças sujismundas agarradas às saias. Era a culpa queimando mais que o sol, pesando-lhe mais que a trouxa. Era a culpa, que lhe virava a cabeça, lhe rondava qual urubus à presa moribunda.
O vento frio anunciou o fim de mais uma tarde e o caule retorcido da sirigüelera foi abrigo àquela noite, em que os urubus de Valdevina circundaram, circundaram.
Levantou-se. Não pôde mais com tanta dor.
Largou-se a caminhar sozinha, mato a dentro. E haja ferir-se nos ramos secos sem se notar. Estava indiferente como um lazarento, que, dada a quantidade de dores, já não sabe atinar para qual lhe castiga mais. A lua alta, gorda e amarela lhe iluminava o caminho, e os urubus, urubus, urubus, sempre em volta. Apertou o passo; enveredou-se pelos ermos com avidez de negra fugida. Desnorteada, já não lhe importava a direção; tudo lhe vinha turvo, banhado em nuanças de amarelo e breu. Gordura da lua.
Pouco mais, viu-se a correr (...) e o corpo cansado, num assomo, foi ao chão. E, em prantos, odiosa que estava de si, resfolegava: “Ele pôde, e eu não pude. Ele pôde e eu não pude”, lembrando o marido. Sim, já atestara não poder mais com tamanho verme lhe comendo por dentro, sorvendo-lhe a vida, a começar das entranhas.
“Não pude”, lembrando o marido.
“Não pude”, lembrando os filhos.
“Não pude”, lembrando a mãe.
E, já morta de alma, deixou aos urubus, urubus, urubus o oficio de rasgar-lhe as peles, bicar-lhe os olhos, romper-lhe as vísceras.
A lua gorda deu lugar a um sol impiedoso e o vento frio da noite, a um abafado, que trouxe, de não muito longe, a notícia: e a morte inesperada de Valdevina confundiu as cabeças retirantes, mas não tanto quanto a estranha insistência dos urubus, urubus, urubus..., sempre em volta, a reivindicar o corpo.

